17 de julho de 2009

Etnolinguismo luso africano? (Artigo)

Esta pesquisa vem abordar a história etnolingüistica luso africano, pois além do português ser o idioma oficial no Brasil, o português aqui falado teve influência de outras línguas, portanto, devido a grandiosidade do tema será feita apenas uma breve análise da história da formação das línguas portuguesas e africanas, em especial dos povos bantos, que se mesclaram-se no Brasil e deram origem ao povo, desde de suas raízes, heterogêneo brasileiro. É sabido que não só de africanos e portugueses é formado o Brasil, entretanto nesta análise serão abordadas apenas as já citadas, deixando as línguas indígenas, inglesas e outras para uma posterior ocasião.
Para tanto utilizei como referencias um artigo de Bruno César Cavalcanti Professor de Antropologia e pesquisador alagoano intitulado de As Bantas Coisas de Alagoas - culturas negras, passado e presente. Nesta obra Cavalcanti (2005) nos dá um testemunho sobre a influência da cultura banto no Brasil:

Por isso, leitor, quando pronunciar "gunga" você estará falando da praia alagoana, mas, provavelmente sem o saber, estará também se referindo a "berimbau pequeno". Se disser "mutange" ou "cambona" estará falando banto; e se der de ombros ou apontar com o queixo ou beiço, se dançar um samba de roda, se improvisar o "passo" num frevo rasgado, ou jogar uma capoeira de Angola, se utilizar a quase totalidade de nossas expressões informais para a sexualidade, mas, também ainda, quando se dobrar ante a força de um Preto Velho num terreiro Umbanda ou "Xambá" - linha de culto afro-brasileiro de influências banto e cabocla - saiba, você estará exercendo seu lado "banto".

Também o texto "O Berço Africano" de Del Priori e Venâncio onde, os autores nos mostram um pouco da história da África Ocidental e Centro-Ocidental berço de nossos ancestrais africanos, como nos mostra os autores, (2004, p. 2) “[...] pertencentes aos milenares troncos lingüísticos nígero-congolês ou banto.” E da resenha feita por Dante Lucchesi sobre a edição da etnolingüista Yeda Pessoa de Castro do manuscrito de Antonio da Costa Peixoto. Segundo o resenhista a etnolingüista “a pretexto de fazer uma edição do manuscrito de Costa Peixoto, acaba por oferecer ao leitor brasileiro um lauto banquete, em que são servidas as mais finas e variadas iguarias da formação etnolingüistica do Brasil.” (LUCCHESI, 2004). E por fim da obra extraída do site portuguesaafrica.com de onde utilizaremos o conceito de língua: “expressa oralmente ou por escrito, a língua é uma forma de comunicação humana que consiste na articulação e na combinação de palavras de uma forma estabelecida pelas sociedades. Tem como função transmitir o conhecimento e a cultura que caracterizam as sociedades etnicamente.”
O português, assim como tantos outros idiomas europeus e asiáticos, pertence ao tronco lingüístico indo-europeu de famílias que se instalaram na península ibérica por volta do II milênio antes de Cristo, e tem sua origem do latim popular desenvolvido na península iberica durante o domínio romano. A história da língua portuguesa é divida em três fases: a pré-histórica: “estende-se das origens da língua ao século IX. Quando surgem os primeiros documentos latino-portugueses. Dentro desse período temos o que se chamou de romance lusitano”(idem); outro chamado de proto-histórica do século IX ao XII; e a terceira fase,do século XII aos dias atuais, chamado fase histórica, que se subdivide em dois períodos o arcaico e o moderno, este se define pelo aparecimento das primeiras gramáticas que definem a morfologia e a sintaxe, e ao contrário do período arcaico sofre poucas influências. Este por sua vez definido do século XII ao XVI, “quando Portugal estabelece um império ultramarino, a língua portuguesa espalha-se por varias regiões da África, Ásia e América e sofre influências locais.” (idem).
A África é um continente muito vasto e de uma história humana milenar. A cultura banta, que se caracteriza pela língua, se desenvolveu tendo que enfrentar algumas dificuldades para perpetuar-se, “[...] ampliar as sociedades, humanizar a terra e lutar contra um clima impiedoso foi tarefa que, desde a Antiguidade, empurrou colonos para as savanas em busca de melhores condições de vida.” (DELPRIORE e VENÂNCIO, 2004, p. 2). De povos nômades a sedentários os povos banto foram obrigados a migrarem do centro africano para a costa ocidental da África, e as varias migrações feitas por estes povos fez com eles precisassem se dividir e procurar novos rumos dando origens a novas tribos. Além dos bantos os iorubas, ibos e pigmeus habitavam a África abaixo do deserto do Saara. Assim “os bantos mantiveram certa homogeneidade religiosa da qual sua língua é testemunha.” (idem, ibidem, p.24). A brevidade deste trabalho não nos permite, devido à complexidade da História da África, especificar os povos que vieram e para onde foram remetidos, até por que por medidas estratégicas procurava-se dispersar os grupos étnicos e lingüísticos para evitar rebeliões, contudo segundo Cavalcanti (2005):

Foram negros bantos provenientes, sobretudo, dos atuais territórios de Angola, falantes do quicongo, do quimbundo e do umbundo, entre outras línguas; da República Democrática do Congo (Congo-Kinshasa, ex-Zaire) e da República Popular do Congo (Congo-Brazzaville), falantes do quimbundo e do quicongo, entre outras, que constituíram a força de trabalho africana espalhada inicialmente na costa brasileira, entre os séculos XVI e XIX.

Do tronco lingüístico banto temos mais de 450 línguas diferentes, além dos paises acima citados temos ainda Camarões, Guine Equatorial, Congo, Ruanda, Quênia, Tanzânia, África do Sul entre outros paises que possuem vários idiomas derivados do banto.
Como conclusão, percebo que a relação dominadores/dominados se reflete na formação etnolingüistica do Brasil, pois uma etnia minoritária, a dos portugueses, dominadores, conseguiu fazer com que vários grupos étnicos africanos, dominados, satisfizessem suas necessidades econômicas sobrepondo-se a eles e impondo-lhes sua cultura e língua e ainda dar origem a uma colônia extensa e heterogênea, pois além dos africanos trazidos havia os nativos, índios, que não conseguiram evitar a invasão e foram também subjugados. Sendo a língua portuguesa um dos fatores de coesão no território que posteriormente veio se consolidar como nação, heterogênea, de característica regionalista, assim caracteriza-se um português falado em Minas Gerais, um em Maceió, outro no Rio de Janeiro e assim por diante, mas que não se distinguem muito, sendo estas variações explicadas, acredito, pelos diferentes tipos de povoamento; e que no entanto não originou uma língua pidgins, ou seja, “quando dois povos que possuem línguas diferentes entram em contato por um tempo prolongado, seja em razão de colonização, seja por um processo distinto, um dos fenômenos que podem ocorrer é a criação de uma terceira língua a partir da interação de ambas. Essa terceira língua é bastante simplificada e caracteriza uma língua pidgins.” ( ). Como exemplo de uma língua pidgins: “desenvolveu-se na Idade Média uma língua chamada língua franca, essencialmente comercial, que possibilitava o contato dos comerciantes venezianos, catalães, genoveses, florentinos e árabes com as populações românicas do mediterrâneo, sem que se fizesse necessário aprender todas as suas línguas.” (idem).
O estudo das línguas dos povos que formaram o Brasil é muito importante para se valorizar as influências africanas aqui, pois há o estudo da literatura portuguesa alegando que a literatura brasileira inicia-se com ela e emancipa-se, ou seja, faz parte da história da língua portuguesa de Portugal, e pouco, ou quase nada se fala da literatura portuguesa de nações africanas, e que são parte essencial da história do Brasil e por conseqüência da sua literatura, terminarei pois citando um poema de Jorge Barbosa, poeta de Cabo Verde:

Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.
Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de vôo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.
E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pela fúria dos temporais.
Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando o pé direito na areia molhada
e se persignou receoso e ainda surpreso
pensando n’EL-REI
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Referência:

CAVALCANTI, Bruno César. As Bantas Coisas de Alagoas - culturas negras, passado e presente. Maceió 05 nov. 2005. Disponível em:
Acesso em: 13 abril 2009.

Del PRIORE, Mary e VENÂNCIO, Renato pinto. ANCESTRAIS: uma introdução à história da África Atlântica. 4º. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

RESENHA feita por Dante Lucchesi sobre a edição da etnolingüista Yeda Pessoa de Castro do manuscrito de Antônio da Costa Peixoto, datado de 1741 e intitulado Obra nova da língua geral de mina. Scielo, São Paulo, jan/jun 2004. Disponível em: . Acesso em : 13 abril 2009.

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