Um dia tentei escrever um livro, peguei alguns papéis que tinha por perto, uns três ou quatro para dar volume e para não acabar quando eu estivesse criando. Sempre tive vontade de escrever, mas nunca pensei sobre o que falar, são tantos e tão ricos os acontecimentos que poderia falar sobre qualquer coisa, por exemplo: as ruas, onde as coisas acontecem, todos passam, muitos observam, alguns vivem e outros sobrevivem, enfim, um lugar onde muitas coisas acontecem.
As ruas...
Percebo então que não tenho nada para escrever nem sequer um toco de lápis, eu precisaria mesmo era de uma caneta, vejo que não seria fácil escrever um livro. Não tenho dinheiro para comprar a caneta e se tivesse não seria um bom investimento, pois, poderia usar apenas naquele momento de inspiração, tudo o que tenho, ou melhor, tudo o que consigo de uma forma ou de outra se torna muito caro mesmo que eu ganhe. Não sou aquilo que você gostaria de ver pelas ruas, mas estou aqui, portanto, me ignorar torna-se com ênfase na palavra ignorância, burrice, o que os outros têm e eu sei que a maioria não tem, eu estou pedindo, não tive muitas chances de trabalhar o que eu pensava quando eu estava aprendendo a pensar e nas poucas chances que tive na vida, tive que aplicar o que eu não sabia, sem simulados. Então tive que calar e continuar com fome, uma vez com ela morta outra com ela viva fui vendo e aprendendo a viver no centro do Planalto Central, convivendo com a cara e a coroa das moedas que ganhava.
Consegui a caneta parece estar funcionando só preciso fazer uma pequena cirurgia para ela voltar a funcionar...
Ouvi dizer que com a barriga cheia se pensa melhor e é bem verdade quando se acaba de comer, voltando o pensamento para o meu livro, sei que ele não será o mais vendido, para falar a verdade vai ser difícil eu conseguir terminar, o dia só tem 24 horas e se você for afundo verá que ele tem alguns minutinhos a menos, ouvi falar isso não sei onde nem se é verdade. Vendo todos esses acontecimentos, desde que me inspirei até aqui, decido escrever sobre a minha vida, sofrida e desgraçada, confesso, mas que se reflete com a de qualquer um que for ler meu livro, aqui onde vivo é difícil crescer, alguns amigos meus já apareceram fotografados em grandes outdoors, mas nunca ganharam nada com isso e nos meus poucos anos de vida aprendi que a imagem atraí pensamentos para um único propósito e onde há um propósito há investimentos, e como na moeda que sustenta minha vida tem dois lados, quanto mais um de um lado menos um do outro, assim, resultado negativo dos investimentos, sou eu o assunto.
Alguns dos maiores e melhores escritores um dia foram desconhecidos, não sei se a frase é bem esta, mas essa é uma das vagas lembranças que tenho da minha última professora, a da 1º série, isso me dá uma importância única, mesmo que só tenha valor para mim. Não lembro porque entrei para a escola, nem por que sai, só sei que a fome aumentou por causa disso tanto no passado como agora, mas vou aproveitar o que sobrou do que sobrou de alguém na minha barriga para continuar... Quer dizer começar, pois agora que sou o assunto não tenho certeza de onde começar, aliás, certeza é algo que eu nunca tive, porém, sou de suma importância, não agora, mas depois que eu morrer e reconhecerem o meu trabalho vão me colocar entre os melhores escritores, vão dizer que eu deveria ser o presidente do país, porém, morto não faz nada, entretanto, na vida real vivo também não. Na minha ignorância aprendi isso.
É. Depois deste livro vou escrever livros e livros, vou ganhar dinheiro, “ganhar dinheiro” essas palavras soam bem, ga-nhar di-nhe-i-ro, vendo pelo lado positivo da moeda, por que só pensar em coisa ruim só atrai mais coisas ruins. Não, esse livro eu vou mostrar para alguém... Já sei, vou pedir para um camarada, que pela manhã toma café aqui por perto, em uma das conversas que tive, ele me disse que é reporte e divulga no jornal, ele deve saber exatamente onde me levar para ganhar dinheiro (olha ela aí novamente), não melhor: ele vai começar a ler e me pagar alguma coisa para comer, enquanto continua a ler porque gostou do começo, e me chamou de inteligente e parabéns e coisa e tal, aí depois, de barriga cheia, com um novo amigo e por que não, sócio, ganhar dinheiro.
Pronto, agora posso começar, estou confortável, pensamento rápido, quente e evoluindo; o assunto, caneta, papel, tudo certo. Bom, vou escrever!
* * *
Agora estou correndo, destino? Não sei, só correndo. De quem? Não fiquei para ver. Já cai de mosca “p’ros aranha” e não é bom o que é escondido.
Não sou mendigo, não tenho nem nome de verdade nem um número de identidade, o poder está aqui na minha frente do tamanho contrário do universo atômico da minha barriga. Do outro lado dessa moeda, se esconde um sonho meu, jogar meu futebol, ir ao colégio levado pela mãe, quem é minha mãe? A Capital do capital, dinheiro saindo pelos túneis e eu aqui vendo o símbolo longe e a minha barriga vazia perto de mim, tão perto que é dentro.
A fome é como um sonho lindo, gordo e maravilhoso e quando acorda feia, magra e desgraçada. Atrapalhando o meu nome de aparecer numa folha de papel, pois tropecei na felicidade que não é a minha realidade e cai de cara no chão da miséria. Isso comprova uma tese: pensa-se melhor com a barriga cheia. Agora depois do começo que não começou por causa da carreira que levei ainda bem que nessa eu não tropecei por que nas duas realidades o chão é o mesmo só que nesta tinham raiva nos olhos.
Por que é tão difícil escrever? Organizar tudo, capítulo por capítulo, mas meu livro deverá ser assim todo dividido, organizado afinal tenho certeza de que será o melhor, digno de um escritor, simples, porém essencial à literatura brasileira, pois foi escrito por um menino de rua que é o retrato do país: novo, inteligente, apesar das dificuldades luta para melhorar de condições mesmo que essa melhora seja atrasada e sob algumas condições, sei que sou inteligente, na lanchonete conversando com os jornalistas, eu sempre esculto “esse moleque é esperto devia estar é na escola sabe mais que muito homem adulto”. Mas, nem nome de verdade eu tenho, já tive, mas estava relacionado à prisão, tinha que aceitar ordens dos outros por não ser filho deles, sei que perdi um futuro pela frente, mas o que posso fazer? Se não estava me sentindo bem e nas ruas eu sou eu, muitos não gostam também não me importo, eles não se importam comigo.
Já não quero mais escrever sobre minha vida, afinal, ela é como a de varias pessoas no máximo aparece no jornal se eu morrer. Preciso escrever uma história que ponha meus leitores a refletirem sobre as crianças que moram nas ruas, a se preocuparem mais em nos adotar e nos dar um motivo para sorrir, quantos como eu, ou melhores, se perderam e nem foram conhecidos. Já fiquei sabendo de pessoas que hoje são importantes por que foram aproveitados, mesmo que para promover e dar lucros a alguém, mas o valor deles é incalculável e deveria ser somado a essa nação e não a patrões. Vai ser o tema do meu livro: pessoas de valores que estão desvalorizadas. Vai ser interessante, chocante, motivo de estudos, do sonho de um pequeno atingir a realidade de grandes.
Acho que não vou escrever livro nenhum. É melhor eu procurar algo melhor para fazer.
Não!
Vou escrever sim, se não nunca vai mudar, um revolucionário como eu não posso pensar não, só sim. Eu serei exemplo a seguir e ninguém segue alguém que pensa não. Agora sim entrei em um acordo comigo, sei sobre o que falar, tenho a caneta, papel, parece que nada vai me atrapalhar agora e estou a um livro do sucesso é só escrever...
16 de julho de 2009
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